Nem sei direito por onde começo, de tão indigesto e incômodo que esse assunto é. Acho que uma boa parcela da população passou, passa ou passará por esse tipo de coisa, seja de que forma for. Já sofri preconceito por ser mulher e "por ser de cor" (eu me considero negra, mas se o IBGE diz que sou parda...), por ser gordinha, por ser baixinha, por ser a aluna cdf da escola, por ser pobre...mas são coisas que eu aprendi a driblar com o tempo, apesar de doer sim, e por saber que infelizmente não seria a última vez pela qual eu passaria por isso. Porém, um tipo novo de preconceito vinha me incomodando e acabou por me atingir mais fortemente do que eu esperava.
Para pôr as coisas em ordem, preciso voltar um pouco no tempo e citar fatos pessoais. Desde o início do ano passado, comecei um relacionamento com um rapaz 8 anos mais velho que eu. Uma das principais encrencas que tivemos foi justamente essa diferença de idade: enquanto tenho 20 anos, ele tem 28. Para nós dois, isso não era empecilho algum, e nem para minha mãe por motivo semelhante: ela é 6 anos mais nova que meu pai. Mas para o meu velho e algumas pessoas da minha família não foi bem assim, afinal das contas, a menina de ouro deles estava namorando com um "homem" muito mais velho e que além disso era obeso (muito magra que eu sou, não é mesmo?). Foi uma bela confusão, e demorou um tempo para que aceitassem ele de braços abertos.Da minha família eu esperava uma certa comoção, mas não a ponto de eu brigar feio com uma tia e minha avó materna por causa disso. Curiosamente, essa tia está hoje namorando uma cara 14 anos mais velho que ela. Como diria minha mãe, "nunca digas que desta água....". Mas com a família, agora as coisas estão em ordem.
Outra coisa que eu queria ressaltar é a diferença entre o preconceito e os micropreconceitos. O preconceito é a atitude desmascarada e claramente seletiva. É aquele tipo de atitude na qual se vê indiscutível e e inegavelmente a discriminação ali existente. Já o microprenceito são aquelas atitudes veladas, onde não fica bem clara a discriminação. Frases não-ditas, olhares de esguelha ou diretos, atitudes frias são só alguns exemplos disso. Mas o que distingue realmente uma de outra é a reação que cada uma desencadeia. Enquanto alguém que sofre preconceito se sente humilhado, também vem com a humilhação a raiva e a gana de querer a revanche, e mostrar que você pode sim seguir adiante apesar desses pedregulhos no caminho. Já com o micropreconceito a coisa muda. Ali, a discriminação é velada, e muitas vezes por mais que se sinta que houve sim discriminação, não há como se provar que houve isso de fato. E a sensação que vem é a de impotência. E quanto mais você passa por isso, mais essas coisas vão te minando as forças, até que você acaba cansando e desistindo. Recentemente, foi feita uma pesquisa nos EUA com o objetivo de apurar o motivo de haver tão poucas mulheres formadas nos ramos de engenharia e arquitetura. Os pesquisadores acreditavam que a principal causa da desistência feminina nesses cursos se devia à dificuldade de conciliar o trabalho com marido e filhos; mas para surpresa geral, esse não foi o motivo principal, e sim os micropreconceitos que essas mulheres sofriam em seu meio, fosse por professores ou colegas de curso. Muitas se sentiam desvalorizadas e diminuídas em suas áreas, e por isso optaram por trocar o curso ou mesmo desistir da faculdade. E foi desse tipo que me senti vítima.
Desde o início do meu namoro, me acostumei aos olhares de surpresa das pessoas. Afinal, apesar de ter 20 anos, meu rosto e minha estatura desmentem isso. Já me disseram que eu tinha 16, veja só. No meu primeiro dia de aula na faculdade, perguntaram se eu não deveria ir pro colégio de aplicação, pois aparentemente tinha descido na parada errada do campus. Esse episódio sempre foi motivo de riso para mim e para meus amigos e familiares. Mas nunca pensei que o fato de parecer mais nova me rendesse uma atitude preconceituosa. Além do fato de eu parecer mais nova, a grande maioria das minhas roupas se encaixa tanto para jovens quanto para adolescentes, o que piora minha situação. Como se não bastasse, a postura e a maneira de se vestir do meu amado fazem-no parecer mais velho do que ele realmente é (e some uma vasta barba a isso). Então para nós, os olhares de surpresa se tornaram um lugar-comum, algo que não costumamos nem reparar. Porém, quinta feira passada, fomos ao shopping Iguatemi assistir o filme "Detona Ralph", que aliás recomendo para todo mundo. Admito que esse não é meu shopping favorito pelo fato de ser muito elitista e ser voltado principalmente para o high society de Porto Alegre, o que o torna o típico lugar onde se ouvem comentários depreciativos sobre tudo e todos. Só escolhemos esse shopping pela proximidade da casa dele e pelo horário da sessão legendada, que terminaria um tanto tarde.
Pois bem, chegamos razoavelmente cedo e fomos dar uma volta antes e ver o filme, e conforme caminhávamos, percebi os olhares que nos eram dirigidos. Havia aqueles que eram de surpresa, mas também havia olhares diferentes, que eram abertamente belicosos. Aquele tipo de olhar que faz você se encolher como se tivesse tomado um tapa ou um murro. A impressão que eu tive era a de que eu, nós dois, não tínhamos o direito de estar ali, muito menos de estar juntos. Uma coisa é um olhar especulativo ou surpreso, outra um olhar carregado de veneno. E eu me senti cada vez pior. Miseravelmente eu falhei na missão de não deixá-lo perceber o que eu sentia, mas não quis explicar de que se tratava. Mas eu me senti agredida, ferida. Por mais que eu quase sempre consiga sê-lo, eu não sou forte o tempo inteiro. Há falhas na minha armadura, e eu fui pega desprevenida. Só não chorei de raiva por que havia sido meu último dia de provas na UFRGS, e a minha primeira saída nas férias. O fato de o filme ser de comédia e animação ajudou a levantar meu astral, mas ainda sim me senti mal. E a maneira que encontrei de extravasar isso foi escrevendo.
Eu não pretendia que o post fosse tão grande, mas certas coisas devem ser postas para fora. Não vou deixar de amar o Daniel por preconceito alheio, e também não vou deixá-lo por isso. Apenas acho um absurdo enfrentar esse tipo de coisa em pleno século XXI, e eu gostaria e muito de poder sair com ele sem enfrentar esse tipo de coisa. Fica aqui meu protesto.
Música: Muse - Hysteria
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